Os estágios Catárticos de uma campanha

Acompanho projetos de quadrinhos no Catarse desde 2012, estou pra financiar minha quinta publicação nessa plataforma e a única certeza que eu tenho sobre uma campanha é: não há como ter certeza de nada. Cada experiência é única.

Se você já teve a curiosidade de investigar o histórico de campanhas bem sucedidas no Catarse, pode ser que tenha tirado conclusões precipitadas. Isso porque não há como saber como foi o processo olhando apenas para seu resultado final. Ver que tal projeto terminou com 150% da meta atingida não mostra que até uma semana antes de fechar o prazo ele estava desesperadamente estagnado nos 40%!
esbelto

Então hoje vou destrinchar os estágios mais comuns de uma campanha de financiamento coletivo!

Fase 1: O medroso corajoso

Em 2011, no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos – Belo Horizonte), conheci o “Achados e Perdidos” do Eduardo Damasceno e Luis Felipe Garrocho. Extremamente animados com a ideia do financiamento coletivo, eu e meus colegas de LoboLimão decidimos colocar um projeto no Catarse. Isso era 2012, poucas pessoas conheciam e entendiam a brincadeira e quase não tínhamos modelos a seguir. Calculamos todas as nossa despesas e havíamos chegado num valor muito alto, o que nos obrigou a recalcular algumas coisas e cortar várias outras até chegar no valor de R$13mil. Felizmente conseguimos juntar quase R$17mil. Mas isso não nos reconfortou na hora de estipular a meta pra campanha do ano seguinte.

Era ano de FIQ, o Catarse já estava mais difundido e nós já estávamos mais conhecidos. Não foi o suficiente. Tivemos medo. E apesar de precisarmos de cerca de R$15mil pedimos apenas R$10mil. Chegamos a cogitar pedir ainda menos. A inexperiência e o medo podem fazer você cometer erros dos quais você pode se arrepender muito depois. Mas, como minha mãe sempre disse, eu tenho mais sorte que juízo e, felizmente, reunimos mais de R$15mil.
doragon

No ano seguinte, com o Catarse fervendo de projetos resolvi dar um passinho à frente. Meu objetivo era financiar não um, mas DOIS quadrinhos de uma só vez. Eu precisava de exatamente R$15mil reais e foi exatamente quanto juntei, mesmo pedindo apenas R$10mil. Mas, ora, fui como o Chapolin e todos os meus movimentos foram friamente calculados (ou não).

Fase 2: O matemático

Em 2012, quando realizei minha primeira campanha eu não fazia a menor ideia de como seria o ritmo dos apoios. Então o que eu fiz foi esperar que juntássemos 12,5% por semana (durante 8 semanas). Aliás, tínhamos metas diárias: R$216 por dia! Deu certo na primeira semana? Sim! E nas outras? É claro que não. E a agonia e a ansiedade foram tomando conta. Você começa a calcular e recalcular quanto precisa entrar por dia TODO DIA pra atingir a meta no tempo certo. Mas nunca bate. E aí você volta a calcular tudo de novo.
contador

Já a largada de 2013 foi menos burra. Nós já tínhamos a experiência passada e sabíamos como a coisa toda funcionava, mas foi a campanha do Batsuman que me deixou feliz. Eu havia lido um artigo no blog do Catarse a respeito de um grupo que bateu sua meta de R$10mil em 5 horas! Uma das dicas era oferecer uma recompensa pras primeiras contribuições. Então eu fiz igual e prometi um sketch pros primeiros 50 apoiadores. Lembro de estar em um hotel em Itajaí (por causa de um evento) anotando os nomes dos apoiadores que iam pipocando para não me perder.

Fase 3: F5

Se você não sabe como é fazer uma campanha no Catarse, vou resumir pra você: F5. F5. F5.
Você não come, não dorme, não trabalha, não faz mais nada. Você dá refresh na página. É só isso que você faz: F5! F5! F5! E se aparecer algum apoiador, você corre pra ver quem é. É sempre assim. Sempre. Acredite.
notsure

Apesar de essa ser a sua mais nova grande diversão, cuidado, é como uma droga que vai sugar a sua alma e acabar com a sua vida. A primeira semana é bacana. É jóia! Muitos apoios, dinheirinho entrando… Mas a medida que o tempo vai passando a campanha perde o fôlego. E isso é normal. Os mais chegados vão correr pra apoiar, mas a grande maioria vai esperar virar o cartão, vai esperar ter a certeza do 100% e por aí vai. A dica é não se deixar ser sugado pelo terror que  está por vir…

Fase 4: O velho marinheiro

“Dia após dia sem se mover nem respirar. Parados como numa pintura de navio no oceano. Água, água por todos os lados e nem uma gota para beber.” A calmaria na metade da campanha é normal. Mas lá em 2012 quando fiz meu primeiro Catarse eu não sabia. E o desespero bateu.
ancientmariner

Lembro que paramos com cerca de 45% e ficamos nisso durante mais de uma semana. Talvez duas. Não sei, minha memória afetiva diz que foram décadas de sofrimento e dor. E devo admitir que não fui um nobre sobrevivente. Nós apelamos pra arma secreta: nós mesmos injetamos mais de 3mil reais. Isso nos empurrou para o animador 70% e, como num passe de mágica, as pessoas passaram a acreditar! Essa trava dos 40% voltou a nos assombrar na campanha do ano seguinte, mas não tivemos que apelar e tudo se desenrolou sozinho.

Fase 5: O feirante

Imagine que você está numa feira e lá no cantão tem uma barraquinha vazia. Ela não aparece muito atraente, né? Agora imagine que no centro dessa feira tem uma tenda socada de pessoas berrando, gesticulando e jogando dinheiro na cara do feirante. Parece bom, né? Deve valer a pena. Objetivo de vida: seja essa tenda no Catarse.

É por isso que os apoios iniciais são tão importantes. É por isso que não é bom deixar a campanha parada sem apoio muito tempo. E é por isso que é extremamente importante chegar nos 100% o mais rápido possível. Gente atrai gente.
feira

Em 2014 na campanha do Batsuman, ao contrário das outras duas, os apoios foram estranhamente regulares. Toda semana entrou de 10% a 15%. Sem falta. E eu tenho certeza de que isso influenciou muita gente na hora de ajudar a financiar o projeto.

Fase 6: Gente que deixa tudo pra última hora…

Quem tem medo de apostar só se mexe na certeza de vitória. Não é nem um pouco incomum projetos ultrapassarem a marca dos 100%. Mais normal ainda é isso ocorrer nos acréscimos do segundo tempo. Lembro que nas três campanhas que realizei juntei mais dinheiro nos últimos 5 dias do que no mês anterior todo.
graficuzinho

Como eu disse lá em cima, a campanha de 2014 foi para financiar dois quadrinhos. Assim que o Batsuman fechou 100% eu corri com a divulgação do PAF PAF e precisava chegar nos 150%. Sabendo que, se isso acontecesse, os apoiadores receberiam outra HQ, várias pessoas realizaram um segundo apoio. Foi como um parcelamento sem juros.

Então minha dica pra quem curte apoiar projetos no Catarse é: não deixe pra última hora. Não faça alguém sofrer do coração. Apoie ANTES de chegar no 100%. Essa é que é a graça da parada: ajudar a viabilizar. Se for preciso faça em dois apoios (mas pergunte/avise/converse com o dono do projeto pra ele não se embananar depois)

E minha dica pra quem está com projeto ativo: relaxa, cara… Vai dar tudo certo.
Ou melhor.. não relaxa não! Vai divulgar! Vai lá! Vai apoiar A Samurai! =D

minibanner

Na semana que vem vou falar o que acontece depois que a campanha acaba!

3 comentários em “Os estágios Catárticos de uma campanha

  1. Voltei aqui pra me certificar que o Yoshi escreveu que nos últimos dias as pessoas tendem a investir mais.
    Fico olhando a barrinha do quanto foi atingido para o projeto toda vez que tem post novo.

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