IlustraCÃO #12

A ilustração abaixo faz parte do pacote de recompensas da campanha de financiamento coletivo do livro A Sala de Banho, da Mylle Silva. Apesar de só ter ingressado no mundo das HQs em 2015, a arte da escrita a acompanha desde os oito anos de idade.

Em seu trabalho inaugural, Mylle decidiu encadernar manualmente os exemplares do seu livro de contos. Essa e mais outras 4 ilustrações, todas baseadas em textos do livro, foram transformadas em postais e entregues aos apoiadores.

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Leia abaixo o conto A Sala de Banho, que dá também o título ao livro.

A Sala de Banho

conto de Mylle Silva
publicado no livro A Sala de Banho

Caminhava devagar, como se vazia de pensamentos e só parou para olhar as vitrines de uma loja de fotografia da qual gostava. Enquanto se distraía, um aroma de café com creme chegou-lhe às narinas e no mesmo instante alguém exageradamente perfumado passou por ali. Claudia virou-se como se num susto para ver a pessoa que passava, mas logo se decepcionou ao notar que não se tratava de quem procurava. Encontrou seu olhar no reflexo da vitrine e ficou algum tempo olhando-se nos olhos até perceber que precisava remexer em algumas coisas antes de dar o próximo passo. Ela não tinha a mínima ideia de como começar a procurá-lo, no entanto era mais do que sua obrigação achar o rapaz com quem havia falado na noite anterior.

O perfume amadeirado começou a embrulhar o seu estômago de tal forma que chegou a entrar na cafeteria para usar o banheiro, mas foi barrada por uma placa que dizia que só clientes poderiam usá-lo. Sentou-se e começou a ler o cardápio, pensou em pedir um café com creme e logo desistiu da ideia por se convencer de que assim que o bebesse, o colocaria para fora.

Ali sentada, pegou um caderno e começou a escrever sobre seu encontro com o rapaz chamado Rafael e tudo mais que pudesse lembrar sobre ele. Não tinha foto nem telefone dele, muito menos sabia onde morava ou o que fazia da vida. Havia apenas as memórias e a pouca conversa que tiveram no terraço do prédio onde ela morava. “Um rapaz ruivo, aparentando ter mais ou menos 25 anos, alto e magro. Vestia uma calça jeans azul, camiseta branca estampada e tênis velho. Carregava consigo uma mala vermelha, que escorregava de seu ombro com facilidade e ele não parecia se importar com isso. Mas o mais marcante de tudo era o seu perfume amadeirado e agradável, quase que inesquecível. Encontrei-o às vinte e três horas do dia vinte e cinco de novembro”.

– Você sempre vem ao terraço, não é?

– Venho… Já nos vimos antes?

– Não, é a primeira vez que venho até aqui.

– É novo morador de algum apartamento?

– Não, sou amigo de uma pessoa que mora no prédio.

– Ah, sim, e seu amigo não quis subir com você?

– Estava esperando-o, mas agora não preciso mais.

– A vista daqui de noite é muito bonita!

– Concordo, é quase perfeita!

– Subo aqui sempre que posso para recarregar minhas energias.

– Qual o seu nome?

– Claudia.

– O meu é Rafael. Você pode vir mais perto de mim, por favor?

– Tudo bem.

– Tenho um pedido muito importante para te fazer. Sabia que alguém sempre subia nesse prédio, por isso o escolhi, só não se assuste com o que vou te falar. Eu quero que você me mate.

– Me desculpe, acho que não entendi muito bem… Eu não sou capaz de matar ninguém, muito menos um desconhecido como você.

– Pelo contrário, você não me conhece, então não há por que ter compaixão ou qualquer outro tipo de sentimento por mim, não acha?

– Não vou tirar a sua vida, por mais que tente me convencer do contrário.

– Viver não faz sentido algum pra mim, só te peço ajuda para acabar com isso tudo.

– Acabe você mesmo! Acho que não precisa de ninguém para te dar um empurrãozinho.

– Preciso muito da sua ajuda, você não entenderia o que é não conseguir morrer sozinho.

– Nem quero entender! Olha, seu pedido é muito absurdo pra mim, então vou voltar pro meu apartamento e dormir, ok?

– Em qual apartamento você mora?

– Não vou dizer, não quero saber de você batendo na minha porta com uma arma na mão pedindo pra te matar.

– Eu só queria que você… Ah, esquece. Vamos descer.

“Não conversamos no elevador, e para a minha sorte ele desceu no sétimo andar, um antes do andar onde moro. No entanto, o pior ainda estava por vir: passei a noite sonhando com Rafael morrendo de várias maneiras. Às vezes ele me pedia socorro, outras eu mesma o matava, era horrível! Quando o dia amanheceu e eu já estava convencida de que não conseguiria mais dormir, levantei-me e percebi que o rapaz instalou-se em um lugar muito especial do meu coração e concluí que não me restava nada além de amá-lo”.

Claudia fechou o caderno e saiu da cafeteria já convencida de que ela seria a única pessoa no mundo capaz de ajudá-lo. Voltou a caminhar, agora certa de que ficaria esperando por ele em frente ao elevador, no sétimo andar do prédio. Em sua caminhada de volta, percebeu que estava mais sorridente do que o normal, algo que soava quase como um absurdo para sua mente: como poderia sentir-se mais feliz depois que alguém lhe pede para que o mate?

Ficou sentada em frente ao elevador, levou um livro consigo para passar o tempo, mas cada pessoa que por ali passava interrompia sua leitura. Para algumas delas pensou até mesmo em perguntar se conheciam algum rapaz ruivo chamado Rafael, mas conteve-se na espera. Ao perceber que já havia anoitecido, sentiu desejo de ir até o terraço e prometeu a si mesma que se ele não aparecesse em meia-hora, ela desistiria de aguardá-lo ali. Manteve seus olhos nas páginas do livro, que a cada instante ficava mais emocionante do que a realidade, e só foi arrancada de lá ao ouvir uma voz muito conhecida, provocando-lhe um aumento considerável dos seus negros olhos orientais.

– O que está fazendo aí?

– Ah, você. Como me achou aqui?

– Todos comentam sobre essas suas manias estranhas. Subir no terraço de madrugada, passar a tarde lendo em frente ao elevador… Me pergunto o que virá depois…

– Manias estranhas? Olha, Gabriel, pra começar eu não sei o que você está fazendo na minha frente, então bem que podia voltar para o seu apartamento agora. O que acha?

– Que mau humor! Só queria conversar um pouquinho. Levante-se e vamos até o seu apartamento. O que acha?

– Não quero nem te olhar na cara, por favor. Não depois de tudo o que aconteceu.

– Parece que não conhece a minha esposa, ela faz uma cena num dia e no outro nem se lembra de nada.

– Boa noite! Preciso subir agora.

Gabriel tentou impedi-la de chamar o elevador, mas ao ver que mais pessoas se aproximavam, ele a libertou e se afastou. Logo que a porta se abriu, ela deu um passo sem pensar e percebeu que alguém segurava seu braço com força. Ao olhar para baixo, notou que o elevador não estava ali e sentia-se flutuando por algum tempo, como se um imenso silêncio invadisse sua mente.

“Às vezes penso que morrer cedo seria bom. Morrer agora. Alguém certamente pensará: ‘Deixou tantos sonhos para trás, quantas coisas ainda tinha para fazer…’. Mas não, não quero um ponto final, logo agora que ando cheia de reticências.”

– Quer me matar do coração? Você está mais estranha do que o normal. Vamos subir e conversar agora. E pela escada, por favor.

– Você não é tão ruim quanto eu pensava, Gabriel.

– Claro que não sou! Que ideia é essa agora? Vamos lá, cabecinha de vento. Cuidado com os degraus!

Eles subiram em silêncio, no entanto a mente de Claudia fervia de ideias sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Pensou em comentar com Gabriel sobre o rapaz que pedira para que ela o matasse, mas desistiu de imediato, decidindo assim que aquele seria um segredo particular. Deixou apenas escapar uma pergunta sem muita cerimônia.

– Qual será o sentimento de matar alguém? De enfiar uma faca na carne macia de uma pessoa, por exemplo?

– Não sei! Pergunte a um assassino! E que perguntinha mais estranha essa sua, hein, Claudia! Vamos, me conte o que aconteceu.

– Nada em especial, só estava pensando nisso. Acho que me assustei um pouco com o elevador.

– Bem, podemos dizer que se sentar no sétimo andar em frente ao elevador não é algo muito normal também, não acha?

– Era mais fresco lá.

– Fosse ao terraço então!

– Tive medo que chovesse.

– Ok! Não quero discutir coisas estranhas com você.

– Se me acha tão estranha assim, por que me procura ainda? Vá cuidar da sua família um pouco ao invés de se preocupar comigo.

– Imagine o que poderia ter acontecido se eu não estivesse lá pra te segurar!

– Alguém teria feito a mesma coisa.

– Ou te empurrado de uma vez, não é?

– Tudo bem, te agradeço então por ter me salvado. Só que não quero mais te ver, nem falar com você, muito menos me relacionar com você!

– Eu te amo! Amo muito mesmo!

O barulho das sirenes se aproximando fez com que Claudia não pensasse duas vezes em subir, pelas escadas mesmo, até o terraço. Ela tinha a impressão de que quanto mais ela subia, mais o barulho aumentava, assim como a frequência das batidas de seu coração. Teve medo, muito medo do desconhecido futuro que estava prestes a encarar. “Tenho medo de quanto tempo durarei como palavra. Reconheço que minha vida é pequena em vista do que pretendia dizer. Mas não nasci grandiosa. Se eu fechar os olhos, entrarei dentro de mim.” Percebeu que talvez enquanto ela subia, o rapaz estivesse caindo do prédio, voando pelo ar e zombando do seu esforço em tentar salvá-lo. Quando chegou ao topo, mal teve coragem de abrir os olhos, preferindo esperar por alguma voz a chamando. E nada…

 

Gabriel olhou o apartamento atentamente, tudo estava no mais profundo silêncio, as coisas todas no lugar como havia deixado pela manhã. Sentiu um vazio imenso dentro de si, mal era capaz de lamentar o que tinha provocado. Não conseguia pedir perdão porque não sentia culpa das consequências de seus atos. Poderia descrever com as palavras mais puras a liberdade que experimentava naquela noite de solidão, a primeira de muitas que estavam por vir. Pensou em Claudia, que teria contado tudo a ela se não tivesse saído correndo feito uma doida assim que ouviu as sirenes de uma ambulância qualquer. Temeu por ela, pela vida dela, o único ser vivo que ainda lhe restava para amar e não fosse a preguiça de subir as escadas, iria atrás dela. Olhou um retrato da esposa com o filho, um dos muitos espalhados pela sala, e não conseguiu conter uma lembrança doce, uma lembrança de antes de Claudia e tudo o que poderia acontecer.

Era uma manhã fria, muito mais fria do que o normal para aquela época do ano. Raquel estava um pouco doente e esperava a canja que pai e filho preparavam na cozinha. Gabriel não era capaz de afirmar que algum dia tinha amado a esposa, mas naquela época, com um filho tão pequeno, sentia-se mais sensível e até mesmo confortável com aquela situação, quase um momento de paz em sua vida. As conversas banais, as risadas ingênuas, as aprendizagens de uma criança… Ele se lembrava de tudo aquilo como se fosse um filme, uma mentira, uma coisa toda que ele não queria viver, mas estava vivendo.

“Voltar no tempo, me aconselhar. Que bom seria não doar todo esse tempo nisso. Mas sinto saudades, apesar de antes não ser perfeito. Os dias escorrem. Obrigações? Tantas escolhas, haverá uma certa? Não há ninguém melhor do que eu para me aconselhar.”

Ele se levantou e começou a ouvir as três mensagens da secretária eletrônica.

– Não sei como você está e nem quero saber. Amanhã mesmo vou mandar um advogado para começarmos logo o processo de divórcio. E nem pense que poderá ver o Lucas assim tão fácil, porque na verdade ele nem quer te ver também, ficou muito magoado com a história toda.

No fundo Raquel tanto fez que conseguiu casar-se com Gabriel. Ele foi deixando que tudo acontecesse, não relutou em nada. Quando percebeu, ela já estava grávida e toda a família em polvorosa pela criança que estava por chegar. Ele não era uma vítima das circunstâncias, mas uma vítima dele mesmo por não ter dito não na hora certa.

– E aí, irmão, tudo bem? A Raquel veio até aqui para pedir conselhos, na verdade queria que eu fosse o advogado dela no processo de separação. Não tive coragem de aceitar e acabei indicando um amigo meu. Ela só aceitou depois de muita insistência. Vê lá o que vai fazer, hein. A mulher está muito brava com o que você fez, vai fazer de tudo para colocar o seu filho contra você.

Rubens era um irmão normal, um irmão que não fazia muita diferença na vida de ninguém. Toda vez que comentava conhecer alguém, sempre tentava se colocar como o melhor amigo da pessoa, o mais prestativo e próximo possível. No fundo só queria mesmo era iludir quem não o conhecia bem ou iludir a si mesmo.

– Oi, Raquel! Aqui é a Claudia. Queria te falar que não quero mais ver o seu marido na minha frente. Não ache que isso é apenas um blefe, porque estou sendo o mais sincera possível nesse momento. Eu não o amo de verdade e, acima de tudo, não quero destruir uma família tão linda como a de vocês. Espero que o meu deslize não estrague tudo o que vocês construíram.

– Família linda? Meu deslize? Não o amo de verdade? Gabriel repetiu a mensagem várias vezes e tais palavras passaram de absurdos para verdades absolutas. Já sem mais opções, ele decidiu ir ao encontro de Claudia para conversar de uma vez por todas sobre o que estava acontecendo dentro e fora de suas mentes. Ao perceber que ela não estava nem no apartamento e nem no terraço do prédio, ele foi tomado por um leve desespero, que o fez se lembrar daquela pergunta mórbida, a qual ela havia lhe feito algum tempo antes.

– A Claudia me pediu pra chamar um táxi e saiu.

– Saiu? De táxi ainda? Ela parecia normal?

– Ah, acho que sim! Não notei nada de diferente nela.

– Estava sozinha?

– Sim, senhor.

– Por acaso ela não comentou aonde ia, não é?

– É, não comentou, não, senhor. Ela tinha um papel na mão, provavelmente era o endereço de algum lugar.

– Tudo bem. Muito obrigado.

 

Claudia olhou para o celular e decidiu não atender aos telefonemas de Gabriel, por mais insistente que fosse. Mal sabia o que estava fazendo dentro de um táxi numa noite fria como aquela. Tinha em mãos apenas um guardanapo com um endereço que recebera na portaria do prédio logo depois de descer do terraço para certificar-se de que nenhum acidente havia acontecido nas redondezas. Lembrava-se bem de que o porteiro tinha lhe dito que um rapaz ruivo passara rapidamente por ali e deixara o tal endereço. No entanto, o que mais chamava a atenção era que ele sabia o número do apartamento para o qual encaminhar o recado, mesmo sem que ela o tivesse revelado na noite passada. Já num misto de interesse e incomodo, a ela não restava escolha além de ir até o local indicado sem pensar duas vezes.

Olhava pela janela vagamente, o taxista havia avisado de que o caminho seria longo e que ela deveria ter paciência, pois ele não sabia exatamente onde ficava a rua requisitada. Como não era muito boa com direções, despreocupou-se com o assunto e concentrou suas energias em seus pensamentos variados. Gabriel continuava ligando, agora sem muita insistência, bem característico dele. Era um homem sem meio-termos, sem equilíbrio. Quando queria algo, queria demais ou quase nada, demonstrando assim um espírito que facilmente era vencido pelo cansaço. Claudia ainda era capaz de carregar um pequeno amor por ele, como se uma mera lembrança do que passou, um saudosismo barato. A branda emoção da descoberta do adultério, a sensação de uma liberdade obrigada, saber-se só ainda que acompanhada…

O carro parou numa rua pouco iluminada, a placa dizia que aquele era o endereço. De dentro do automóvel, ela olhou para fora com cuidado, provavelmente em busca de algum ser vivo naquela região, mas não avistou ninguém, fato que lhe provocou um misto de medo e tranquilidade. Pagou o motorista, pediu para que ele não a ficasse esperando e desceu com cuidado. Aos poucos o local tornou-se mais familiar, a ponto de transformar-se em amigável aos olhos de Claudia. O que antes era medo agora era simpatia, transbordando uma intimidade atípica até mesmo para uma pessoa tão estranha quanto ela. Havia uma praça logo ao lado, tão deserta quanto tudo à sua volta, então seu campo de visão não era suficiente para vigiar todas as possíveis direções nas quais Rafael poderia aparecer.

– Está muito frio aqui fora! – o rapaz vinha caminhando do centro da praça. – Vamos, vamos entrar de uma vez.

Ela ficou paralisada, o perfume amadeirado envolveu-a por completo num piscar de olhos. Era ele, em pessoa, ainda vivo – para sua sorte. Sem dizer uma única palavra, Claudia andou na direção de Rafael a passos leves e vagarosos, quase como se dançasse ao seu encontro. Olhou-o profundamente, analisou cada detalhe daquele ser querido e desconhecido. Ela andou em volta dele, aproximando-se aos poucos, desenhando assim uma espiral imaginária no chão, e quando estava já muito perto do rapaz, quando já sentia dele a respiração quente, ela ergueu a mão para tocá-lo.

– Não! O que acha que está fazendo? – disse ele, segurando-lhe o braço.

– Só quero tocar seu rosto, saber se você é real.

– Claro que sou real, não está me vendo aqui? Que ideia maluca é essa agora?

– Sempre aparece de um jeito tão estranho que tive dúvidas sobre o que era você.

– Sou apenas uma pessoa que cansou de viver.

– Não entendo por que quer morrer.

– Não é exatamente que eu queira morrer… Acontece que eu preciso morrer e você precisa me matar, só isso.

– Nunca vou te matar, nem em sonho.

– Nem em sonho?

– Nem em… sonho.

– Como você me matava em seus sonhos?

– Não lembro bem, apenas matava. Te matava e chorava muito, até a exaustão. Mas também sonhei com você morrendo e me pedindo ajuda.

– Acho que hoje é o dia perfeito para a minha morte. Faz tanto frio e já que você não aceitou meu convite, posso morrer aqui mesmo. Só te peço esse favor enquanto é tempo.

– Tempo?

– É, tempo. Existe um tempo limite para você me matar.

– Infelizmente não posso te matar de maneira alguma.

– Por quê?

– Porque eu te amo! – as palavras saíram num sussurro.

“De repente percebo que todos desejam se apaixonar. Deve ser o efeito do verão (mas que verão se estamos no inverno?). Queria uma sinfonia que enchesse minha cabeça e não me desse tempo para pensar. Encontro-te em outro mundo. Encontro-me. Tudo parece dar tempo ao tempo, daí se resolve. Sem pressões nem pressa, livre pensamento.”

Fez-se um silêncio tenebroso, como se a noite tivesse calado a própria boca. Eles se olharam profunda e longamente, estavam muito próximos um do outro, mas nenhum movimento esboçavam. Viviam uma contemplação absoluta, na qual o tempo freava-se aos poucos só para assistir-lhes. O frio diminuía cada vez mais devido à proximidade de seus corpos, que só não estavam colados por poucos milímetros de distância. Rafael ainda segurava o pulso de Claudia no ar com ternura e de repente começou a escorregar sua mão ao encontro com a dela.

– Me perdoe. – ele soltou a sua mão e ela caiu em queda livre num enorme buraco surgido no chão. Claudia fechou os olhos e aproveitou a sensação deliciosa de não ter os pés no chão por muito, muito tempo e logo percebeu que também não respirava mais. Era como se afundasse em uma piscina, só que sem se molhar. Era docemente tragada pela própria morte, no entanto não se importava com isso. Tudo que desejava era fugir do destino, era não ter a obrigação de tirar a vida de quem mais amava.

Já era de manhã quando ela acordou e se deu conta de que dormira no meio da rua.

 

Rubens tocou a campainha do apartamento do irmão algumas vezes e só então lembrou que Gabriel costumava acordar bem mais tarde do que a maioria das pessoas normais. Mesmo assim, para não perder a viagem, continuou insistindo até que ele aparecesse na porta com cara sonolenta.

– Cara, aquela sua mulher está louca da vida. Mas também, olha o papelão que você foi me fazer! Tudo bem trepar uma vez ou outra com a vizinha, agora jurar amor eterno pra ela foi demais!

– Se veio me dar suas lições de moral sem pé nem cabeça, pode ir embora.

– Não faça assim comigo, cara, estou aqui porque fiquei preocupado. A Raquel vai até o inferno pra te ferrar a vida. Quer te tirar até a cueca que está vestindo agora!

– Sinceramente, Rubens, não estou com a mínima vontade de pensar nisso neste momento. Tenho coisas mais urgentes pra resolver.

– Você acabou de acordar, nem ia fazer nada agora! Me ouça pelo menos. Acho melhor você tentar se reconciliar com a louca antes que ela te deixe sem nada. Com a vizinha tudo se resolve depois.

– Minha preocupação é meu filho e só.

– Se depender dela, você nunca mais vai ver essa criança.

– Não tem como isso acontecer, você sabe bem disso.

– É, mas você sabe que quando a Raquel coloca algo na cabeça, ninguém mais tira, né?

– Teria sido bem mais fácil se você tivesse casado com ela!

– Ufa! Hoje eu vejo que me livrei de uma bomba! Ainda bem que se apaixonou perdidamente por você e me largou.

– Se esqueceu de mencionar que a Raquel não sossegou até se casar comigo.

– E ter um filho.

– É, ter um filho.

– Tem certeza de que não quer salvar seu casamento?

– Olha, sinceramente eu sinto que acabei de tirar um peso muito grande das minhas costas. Agora você pode até tentar ficar com ela de novo.

– Cara, não vou negar que ainda me sinto atraído pela Raquel, mas é coisa passageira. Se acontecer, aconteceu, sabe? Sem compromisso nem nada.

– Rubens, me passou algo pela cabeça agora, talvez uma hipótese falha, mas vou dizê-la: essa história de você ter indicado um amigo para ser o advogado dela é pura mentira. Você mesmo é o advogado do caso para cuidar pessoalmente que eu me foda e assim se vingará de tudo que nos aconteceu envolvendo a Raquel, certo?

– Se esqueceu de acrescentar que eu vim te dizer isso pessoalmente. – comentou depois de um tempo de silêncio.

– Achei que estava implícito.

– Pois, Gabriel, meu irmão, viva muito bem os próximos dias, porque logo sua vida será um inferno. Cara, você nem vai perceber como, mas num dia qualquer já vai estar na merda.

– Não me importo com nada disso. Podem ficar com tudo, tudo mesmo.

– Agora você diz isso, soa até bonito, mas quero ver depois quando tudo tiver acontecido já e você sozinho num lugarzinho nojento, quero só ver se ainda pensará assim.

– Rubens, vá embora! – Gabriel o empurrou de leve e mostrou a direção da porta. Ele saiu sem mais nada dizer.

Gabriel pegou o telefone e observou-o por algum tempo. Lembrou-se do momento em que Claudia ligou para ele logo pela manhã apenas para contar que estava bem. Ele gastou as horas a partir de então pensando no que a teria motivado a fazer aquilo, já que mal atendera o celular na noite anterior.

Está tão estranha que já consigo sentir o dia em que nos desconheceremos por completo. – pensou em voz alta.

A reflexão fizera-lhe tal efeito que quando notou, já estava abrindo a porta do apartamento de Claudia. O perfume tão característico invadiu a sua cabeça e fez com que vomitasse tudo o que pensara até então. A casa estava em profundo silêncio, tanto que aos poucos Gabriel foi acometido por um leve desejo de traquinagem: será que ela está dormindo? Começou a andar de maneira ritualística, provavelmente para não acabar com o encanto que o silêncio produzia. Ao aproximar-se da porta, torceu para que ela não rangesse e até segurou a respiração ao máximo enquanto a abria. Um ar quente recebeu-o no quarto e foi então que percebeu que Claudia estava tomando banho. Como se afundasse no sonho, ele continuou indo ao encontro dela, só que agora muito mais certo de si e natural.

– Claudia!

– Que susto me deu!

– Que bom que eu cheguei, isso sim! Você estava dormindo na banheira.

– É, dei uma cochilada.

– Venha, deixa que eu te ajude a sair.

– Não precisa. Aliás, o que está fazendo aqui?

– Sinceramente eu não sei, quando percebi, já estava na sua sala.

– Quer conversar? – disse, levantando-se da banheira, toda a água escorrendo por seu corpo nu.

– Você é tão bonita…

– Era só isso que tinha pra dizer? – ela pegou a toalha e começou a se secar.

– A Raquel saiu de casa, não quer mais saber de mim.

– E isso é bom? E seu filho?

– Ela o levou junto, não sei bem como conseguirei ver ele de novo.

– Não sei o que eu faria no lugar dela. Me sinto um pouco mal com isso. – Claudia caminhou em direção ao quarto, deixando a toalha no banheiro, e foi segura por Gabriel.

– Quero ficar com você. A Raquel vai pedir o divórcio e depois disso poderemos nos casar.

– Casar? Agora diz que quer se casar comigo?

– Qual o problema?

– Não acho que seja… necessário.

– Necessário? Agora eu que não entendi o que você quis dizer.

– Eu… Não quero mais confusão nem com você nem com a Raquel, então decidi que não podemos mais ficar juntos.

– Então o que você disse ontem foi sério?

– Foi.

– Acabou?

– Acredito que sim.

– Não seja vaga!

– Não te quero agora. Faz tempo que já não te quero como antes.

“Nua. Desfolho pétala por pétala do seu corpo. Corpo já tocado, intrigado, rasurado pelo tempo. E eu a desejo enormemente, dia após dia. Abraço-a. Sinto seu corpo junto ao meu. Seus cabelos caem nos meus ombros, no meu rosto, me sufocam, me enforcam. Toma toda minha energia, esvai minha vida. Queria ser dono de seus pensamentos, de seus desejos. Queria decifrar o seu coração.”

– Por favor, Gabriel, me solte e vá embora.

– Me prometa então que ficará bem.

– Pode ficar tranquilo, tá?

Ele deixou que seus braços escorregassem sem força pelo corpo de Claudia, como se já soubesse o que viria depois.

 

Ela ouviu a porta se fechando e permaneceu mais algum tempo imóvel, até decidir-se ir ao quarto e pegar seu caderno. Voltou ao banheiro, encostou-se na parede fria e deixou-se escorregar até o chão, quase como em posição fetal. Apoiou o caderno nos joelhos – mesmo que ainda um pouco molhados – e começou a escrever vagarosamente sobre a lembrança que acabara de ter.

“Trabalhei por algum tempo numa locadora de vídeos perto do prédio onde morava. Era um lugar simples, uma loja de esquina, mas que muito me agradava. Nos dias de semana, em que o movimento não era muito grande, tinha a oportunidade de assistir a quaisquer filmes sem precisar pagar, atividade que me dava um prazer íntimo, como se tivesse um poder sobre todas as outras pessoas que precisavam pagar por seus momentos de prazer”.

“Toda quarta-feira, no final do dia, religiosamente, Gabriel aparecia lá para locar dois ou três filmes. Em pouco tempo nos tornamos amigos e podíamos conversar por horas sobre a sétima arte, motivo suficiente para apaixonar-me por ele. Num dia qualquer, que não fiz questão de marcar, ele me esperou sair do serviço e nós descobrimos que morávamos no mesmo prédio – ficando assim a um passo de nos tornarmos amantes”.

“Nunca fiz questão de namorar ninguém, então me contentava em manter essa relação discreta e íntima. Nós não saíamos juntos em hipótese alguma, como se houve um código secreto em nosso relacionamento, o qual nunca teve necessidade de ser esclarecido. Era assim e pronto. Uma verdade sem palavras que durou cerca de quatro meses”.

“Certo dia, Gabriel foi devolver os filmes que havia locado. Era uma devolução com multa, feita num sábado pela manhã, coisa que não acontecera nunca. Desde quarta-feira não havíamos nos encontrado, mas detalhes como esse passavam despercebidos para mim. Ao contrário de muitas mulheres, eu não fazia questão de ficar ligando a todo instante para saber onde o meu namorado estava. Preferia deixá-lo em paz”.

“No entanto, ao vê-lo naquele dia, senti muita vontade de conversar e sem querer acabei obrigando-o a ficar mais tempo do que ele desejava. O homem parecia meio aflito, tentava a todo custo encerrar a conversa, mas sempre era preso pela animação que eu demonstrava ao falar. Foi então que ela entrou na locadora, e Gabriel não teve mais como escapar: apresentou-me Raquel, sua futura esposa”.

“Não falei nada, apenas sorri gentilmente, como nunca achei que conseguiria numa situação como aquela. No entanto, quando os vi subindo lentamente a rua de mãos dadas, aí sim comecei a chorar. Eu podia não me importar com muitas coisas, mas aquela rua era um símbolo para mim, o símbolo de um amor que começava a crescer e tinha aquele espaço como testemunha”.

“Na mesma noite, Gabriel foi até o meu apartamento para se explicar. Contou que Raquel estava grávida e que não podia deixá-la porque tinha desvios mentais leves. Tudo era por causa da criança. ‘Da criança’ – ele enfatizava. Apesar da mágoa, foi apenas uma questão de tempo – e de muita insistência de Gabriel – para que o nosso romance continuasse”.

“Acho que Raquel nunca foi muito esperta, ou simplesmente fingiu que não via o que estava acontecendo. Só depois de quase cinco anos é que ela, num belo dia, anunciou que sabia do nosso caso e que queria o divorcio. Gabriel não tinha muita coisa, mas tinha o suficiente para dar uma vida tranquila à ex-mulher e ao filho de quatro anos. Ele é publicitário e chegou numa fase em que não precisa mais correr atrás dos clientes: eles é que ligam para ele”.

“Mesmo que ele me diga que agora está tudo bem, que poderemos ficar juntos definitivamente, eu não acredito mais. Decidi intimamente que deveria colocar um ponto final nessa história, ainda mais depois do que a Raquel me fez. No instante seguinte que tomei essa decisão, Rafael apareceu na minha frente…”

Claudia parou de escrever ali. Depois de um leve olhar para si, não foi difícil de perceber tudo o que sentia por Gabriel, mas que se esforçava para esquecer. Talvez, lá no recanto de todas as verdades que carregava, ela queria mesmo que ele a tivesse tomado nos braços mesmo diante de uma rejeição. Assim, deixou-se estar, como um feto protegido pelas paredes geladas e úmidas do banheiro.

 

A campainha tocou. Já fazia algum tempo que ela havia saído do banheiro, vestido-se e começado a ler um livro sentada no sofá. Tocou de novo. Ela queria mesmo era chegar ao final do capítulo para então atender a porta, mas antes que pensasse em desistir da ideia, o visitante já estava em sua frente. Apesar de assustar-se um pouco, não conseguiu evitar o calor que a envolvera no instante em que o viu. Rafael a olhava sem expressão definida, apenas a olhava profundamente.

– O que está achando do livro?

– Gosto bastante dele, mas me sinto triste por estar chegando ao final.

– Não sente prazer quando chega ao final da leitura?

– Sinto, mas não se compara ao prazer de imaginar o que acontecerá depois.

“Kafka à Beira Mar”.

– Como descobriu onde moro?

– Não foi difícil para mim. A verdade é que só não apareci aqui antes porque não queria te assustar.

– Não me assustaria, sempre fico muito feliz em te ver.

– Até quando me vê em seus sonhos?

– São apenas sonhos.

– São as coisas que você deseja fazer comigo.

– Na verdade, são as coisas que você deseja que eu faça com você. No fundo, aqueles são os seus sonhos, não os meus.

– Você adormeceu no banheiro agora há pouco, não foi? O que achou do último sonho?

– Não posso te afogar na banheira.

– Mas eu vim aqui pra isso.

– Eu nunca vou te matar, de maneira alguma.

– Quero que saiba de uma coisa: eu só existo para que você me mate, Claudia.

– Se só existe por minha causa, posso fazer o que eu quiser com você, certo?

– De certa maneira, sim, mas em algum momento terá que acabar comigo. Já te dei tantas ideias…

– Decidi que não vou te matar e pronto. E agora?

– Não estou aqui agora por acaso. Vim resolver o nosso problema. Tudo o que mais quer é me matar, então o faça logo e acabe com isso.

– Eu só saberia te matar de mentira.

– Claudia, Claudia, você é como uma sereia: metade mulher e metade peixe. Consegue viver na água maravilhosamente bem, mas quando pensa em conhecer o resto do mundo, te faltam as pernas! Me mate e ganhe a liberdade.

– Gosto tanto de respirar debaixo d’água, fingir que não existe gravidade e não ter os pés presos no chão! Infelizmente só sou capaz de tirar metade do meu corpo da água, mas é esse o preço que pago.

– Mas você nunca experimentou a sensação de sentir o chão sob seus pés. É uma das melhores coisas depois de uma vida inteira de sereia.

– E o que será depois de ganhar minhas próprias pernas? Não sei andar por mim mesma, já que nunca andei.

– Aprende-se. Você poderá largar tudo, deixar tudo para trás. Poderá ir a qualquer lugar sozinha sem precisar de ninguém te carregando. E ainda nunca mais correrá o risco de ser capturada pela rede de um pescador qualquer.

– É muito mais difícil poder ir a todos os lugares do que viver limitada ao mar.

– Sabe qual é o seu pior problema? É que você não vive num mar, mas sim num aquário que mal cabe toda a sua calda de peixe.

– Melhor ainda, limitada ao meu aquário.

– Os aquários são alvos fáceis quando existem gatos por perto. Lembra-se da gata que quase acabou com você há poucos dias? Quer que aconteça aquilo de novo?

– Se acontecer, poderei me defender melhor agora.

– Ai, ai! As suas respostas são tão lindas, mas eu duvido que tudo isso se transforme em realidade. Além disso, você é uma das sereias mais belas que já conheci. Queria poder te conceder pernas. Você sabia que aqueles peixes japoneses chamados Kingyo crescem conforme o espaço que possuem? Se essa Claudia que está na minha frente vive num aquário e é assim, imagina se ganhar o mar! E se ganhar o mundo!

– Eu não posso te matar…

Claudia levantou-se e colou seu olhar nos de Rafael. Ergueu os braços vagarosamente e o abraçou, o primeiro contato entre eles. O rapaz também a abraçou e fechou um forte elo de energia que os envolvia naquele momento como água. Foi só assim que ele percebeu que nunca mais poderia se separar dela, que não era tão simples como julgava ser. “Teria sido melhor se ela me matasse logo”, pensou consigo. No entanto, ele não queria mais morrer, queria ir com ela, ser com ela, estar com ela para sempre. Desejava ser parte dela, mais ainda do que já era. Por mais que seja uma sereia, que mal há nisso? Que mal há em ser-se o que é? Infelizmente a única pessoa que poderia lhe dar pernas era a própria Claudia, mais ninguém. E no momento exato daquele abraço, ela as renegou.

– Não posso te matar… Porque corro o risco de me afogar em vez de ganhar pernas.

Foram para o quarto e se amaram, agora sem mais nada a dizer. Ficaram juntos por horas, apreciaram-se e aceitaram-se mutuamente naquele tempo. E quando era chegada a hora, Claudia adormeceu.

“Essa tal felicidade. Eu a descreveria como uma moça, nem bonita nem feia. Seus cabelos e seu vestido brincam com o vento. Ela explora um jardim cheio de flores, que aos seus olhos se transforma em um campo. Nada a incomoda, nada pode estragar sua sublime visão.

“Olho pela janela e está chovendo. Sinto vontade de sair correndo e pular em todas as poças que ver na minha frente. Criança pura, saboreando seus primeiros contatos com o mundo. As luzes têm um brilho engraçado e só o abraço materno é capaz de me proteger do frio.

“Essas coisas mundanas não me atingem. Os adultos e suas confusões. Só quero saborear esses momentos até me esvair. Até quando o sono me derrubar. Parece bobagem, mas mesmo sendo criança, já percebi que não nasci para passar pelo mundo como um dia cinza.

“Todas as cores saltam ao meu olhar. Poderia fazer de uma faísca de esperança um momento de glória. Não vou ignorar aquilo que meus olhos revelam. Sabe-se lá quando voltarei a ter a mesma visão.”

 

Quando Claudia acordou, ele já não estava mais lá. Ela sabia bem que nunca mais o veria, mas não sentia tristeza. Rafael encontrava-se num lugar muito especial e único: dentro dela. Tanto que ela se sentia grávida dele, carregava-o em seu ventre. Talvez já estivesse grávida há mais tempo, mas detalhes assim não importavam. O importante era que o sabia dentro de si e estava muito feliz com isso.

Começou a juntar suas coisas, que não eram muitas. Alguns livros e roupas. E o caderno, claro. Nada mais naquele apartamento lhe pertencia, nem mesmo a sala de banho – por mais que gostasse do lugar. Sentia-se grávida e estava decidida a contar isso para Gabriel. Morar com ele. Puxá-lo para debaixo d’água.

Sessão de autógrafos do Minecomics na Fest Comix 2016

Outro dia eu mencionei que a temporada de eventos estava aberta – e não era mentira! Hoje tenho a alegria de anunciar que participaremos da próxima Fest Comix, a maior e mais tradicional feira de quadrinhos do país! O evento acontecerá dias 17, 18 e 19 de junho no São Paulo Expo, localizado bem pertinho do terminal Jabaquara, em São Paulo/SP. 

Mas a melhor notícia mesmo é que o Minecomics – A ameaça de Zork, HQ em que o Yoshi esteve trabalhando nesse primeiro semestre, será lançada na Fest Comix – e com direito a sessão de autógrafos! Como ele mesmo já contou por aqui, o projeto é fruto de uma parceria com a Tambor Quadrinhos (a mesma editora que deu asas a nossa querida Michiko), e será distribuído nas bancas de todo o país.

Sessão de autógrafos do Minecomics na Fest Comix 2016

Foto dos dois primeiros volumes impressos, enviada pela editora

Espero que você esteja tão ansioso quanto nós para ver o resultado desse projeto, porque a sessão de autógrafos do Minecomics – A Ameaça de Zork acontecerá dias 18 e 19 (sab e dom) às 14h no estande da Popster (Editora Tambor), durante a Fest Comix! E olha, tenho quase certeza de que essa será uma das únicas oportunidades de pegar o seu exemplar autografado, já que toda a venda e distribuição da HQ ficará por conta da Tambor Quadrinhos.

Não esqueça da boa e velha lujinha no Fest Comix

Durante os três dias de evento você poderá passar em nossa mesa, trocar ideias e dar uma olhada em nossas produções! Levaremos as HQs Last RPG Fantasy, MAKI, PAF PAF, Batsuman, Fliperamas e A Samurai. Aliás, essa lista precisa da sua contribuição para aumentar, hein! Além desses, meu livro de contos A Sala de Banho marcará presença e os demais produtos derivados que invento por aqui – botons, canecas e caderninhos.

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Espero que possamos nos encontrar na Fest Comix na mais nova aventura do Manjericcão: explorar o universo de Minecraft!

IlustraCÃO #11

A ilustração abaixo faz parte do pacote de recompensas da campanha de financiamento coletivo do livro A Sala de Banho, da Mylle Silva. Apesar de só ter ingressado no mundo das HQs em 2015, a arte da escrita a acompanha desde os oito anos de idade.

Em seu trabalho inaugural, Mylle decidiu encadernar manualmente os exemplares do seu livro de contos. Essa e mais outras 4 ilustrações, todas baseadas em textos do livro, foram transformadas em postais e entregues aos apoiadores.

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Leia o conto (Re)Fresco Verde, com aroma de grama recém cortada.

(Re)Fresco Verde

conto de Mylle Silva
publicado no livro A Sala de Banho

O cheiro de grama recém cortada adentrou a casa. Foi deitar-se já no início da madrugada. O que mais seu corpo ansiava era esticar-se por entre as cobertas e entregar-se ao universo da preguiça. Nesse estado latente, quase vegetativo, separou o corpo da mente e voltou a pensar no quanto adorava ver a grama aparada.

Era primavera e tudo crescia muito rápido. Chuva e sol, sol e chuva. As plantinhas agradecem, mas ela, em termos, não. Ah, o gramado baixo de dias atrás, como era lindo e único, quase uma obra de arte. Nem ao menos quinze dias passaram-se e lá estava ela novamente: a vontade de cortar a grama. Os dias transcorriam como o verde que aumentava à sua volta. A vontade louca de cortar a grama crescia como o mato em flor, bem primaveril.

Contratou um jardineiro para cortar o gramado. Tudo em vão. Encontrou-se, então, com um problema pertinente. Por algum motivo desconhecido seu desejo de cortar a grama não havia passado. Por um instante acreditou que bastaria simplesmente ver o mato baixo de novo pela janela. Decidiu comprar um cortador de grama assim que crescesse tudo de novo – tanto o desejo quanto o verde.

Mais quinze longos dias de primavera se passaram até o esperado momento. Vestiu-se a caráter, pegou todos os acessórios necessários e começou sua festa particular. Ventava, e muito. Era grama para tudo quanto é lado. Grudou-lhe verde até nas narinas. O que mais lhe deu prazer foi o trabalho dobrado de varrer o monte de mato contra o vento.

Orgulhosa de si, viu tudo limpo, ficando apenas um monte de grama no canto do jardim. Olhou-o carinhosamente e por fim descobriu o que tanto a atraía naquele verde. Arrumou o amontoado de mato com as mãos e jogou-se ali mesmo para cochilar.

Manjericcão e Tambor lançam quadrinho de Minecraft!

Finalzinho do ano passado fui convidado pela editora Tambor (a mesma que distribui “A Samurai”) para fazer um quadrinho baseado no universo de Minecraft! Sim, aquele jogo quadradão que toda a molecada é viciada e praticamente fundou a modalidade de “youtubers-gamers”. Assim nasceu “MINECOMICS: A ameaça de Zork”, uma minissérie em 4 volumes que será distribuída nas bancas de todo o país!

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Capa do primeiro volume de Minecomics

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Meu primeiro contato com Minecraft foi muito parecido com o da maioria das pessoas. Lá pra 2011 ou 2012 o jogo tomou conta do YouTube com trocentos canais fazendo incontáveis vídeos de todos os tipos. É claro que eu fiquei curioso e fui experimentar. Passei por todas as fases de experimentação: comecei estranhando os gráficos do game, me desesperei nas primeiras horas de jogo tentando sobreviver nas primeiras noites, desejei explorar o mundo só pra ver até onde ia, construi minha casinha, que depois virou uma fazendinha, perdi horas e mais horas escavando pedras em cavernas, me perdi, me reencontrei, comecei uma mega construção, desisti dela, enfim… só não entrei na onda dos mods e multiplayer. Mas é impressionante como um jogo que parece tão bobo e simples consegue ter uma sobrevida quase infinita, coisa raríssima na grande maioria dos jogos.

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Minecomics

Quando este projeto caiu nas minhas mãos eu sabia o que queria fazer. Queria transmitir ESSAS sensações do jogador. De, aos poucos, descobrir este universo, entender suas leis e regras, conhecer e enfrentar seus perigos e desafios. Aí surgiu Alice: uma garotinha comum que é jogada neste mundo de cubinhos e se vê enfrentando zumbis, aranhas e creepers! Logo ela descobre que, para voltar pra casa, precisará passar por cima de todos os seus medos e derrotar o misterioso Lord Zork.

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Minecomics_yoshi05 Minecomics_yoshi03

A história será apresentada em 4 volumes de 32 páginas cada, todas coloridas.
Procure na banca mais próxima! =)

Aniventure 2016: nos vemos no Beco dos Artistas!

Parece que a temporada 2016 de eventos está prestes a começar. E, como sempre, ela não começa muito longe de casa. Depois de um aquecimento básico no festival japonês Hana Matsuri aqui na terrinha de Curitiba, nos dias 28 e 29 de maio participaremos do Aniventure – o maior e melhor evento de cultura pop do sul do mundo, na minha opinião.

Em sua décima edição, os organizadores dedicaram um espaço para os artistas independentes, chamado Beco dos Artistas. Nele estarão reunidos 10 mentes criativas, entre ilustradores e roteiristas – e nós marcaremos presença com nossas HQs!

Olhando assim, parece pouco, mas são poucos os eventos que se importam em reservar um espaço para os artistas independentes. A visibilidade proporcionada pelos eventos é essencial para o contato entre autor e leitor – ainda mais em um evento tão duradouro e bem organizado.

Hana Matsuri 2016 - nos vemos lá!

Mas e aí, o que teremos na lujinha?

Ora, achei que você não perguntaria! Além de boa companhia, muitos amigos e conversas, teremos nossas HQs e produtinhos fofos à venda! São elas Last RPG Fantasy, MAKI, PAF PAF, Batsuman, Fliperamas e A Samurai. Aliás, essa lista precisa da sua contribuição para aumentar, hein! Além desses, meu livro de contos A Sala de Banho marcará presença e os demais produtos derivados que invento por aqui – botons, canecas e caderninhos.

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E aí, quem vamos? Espero todos lá nessa edição histórica do Aniventure!

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© 2016 Manjericcão

Tema adaptador por Mylle SilvaTopo ↑